Fragmentos de uma história com Vovó Maria Conga



Salve meus fios,

Oceis já conhecem a história da Vó, porque através da menina, a Vó já contou nos

aparelhos que oceis inventaram, como a Vó passou pela escravidão e mais ainda: como a Vó aprendeu nessa passagem, por isso eu a chamo de “Mãe Escravidão”. Bom, mas como tem muita gente que tá pegando esses escritos e não conhece a história da Vó ainda, eu vou contar como cheguei até aqui: A Vó nasceu em uma aldeia africana. Essa aldeia era perto de um rio que alimentava todos os meus irmãos de pele escura. A aldeia da Vó era regida pelo poder patriarcal: os homi caçava e levava pras muié preparar; os homi trazia sementes novas, mas quem buscava água e semeava era as muié; no preparo dos alimentos, quem se alimentava primeiro? Os homi. Na reunião dos homi, muié não entrava, a não ser pra levar alguma coisa pra eles comerem ou pra levar as ervas pra eles fazerem a beberagem que eles dizia que era ritual pro orixá Ossain. Os homens não fazia quase nada, e eu, já naquela época, tinha por volta de meus 6 ou 7 anos, achava esse modelo de vida muito injusto, pensava comigo:

- Mas porque esse monte de homi, tudo forte, não trabaia?


Aquilo para mim tava errado, mas era a minha realidade, era o meu povo. Meu pai era o rei, o chefe da nossa aldeia, e como tal, ele que escolhia os homi pra casar com as menina da nossa aldeia, logo após o sangramento. Os homi era geralmente da outra aldeia e sempre mais véio. Uma vez eu tava brincando com as crianças e me deu uma sede muito grande. Avisei as crianças que eu ia pegar um pouco de água que ficava nas cuia que minha mãe e as muié da aldeia deixava lá perto das casas pra gente beber. Desci em direção às cuia, e tomei aquela água fresquinha que minha mãe tinha acabado de trazer do rio. De repente, meus fios, me deu uma dor muito forte no pé da barriga, muito forte; e em seguida senti um liquido quente descer por minhas pernas. Quando eu olhei pro chão, era meu sangramento. O que me deixou muito preocupada, porque eu sabia que ia ter que me casar com um homi mais véio da outra aldeia, como era o costume do nosso povo. Rapidamente abaixei e puxei aquela terra seca pra esconder aquele sangue, mas quando tem que ser é; a minha avó que tava lá longe enxergou o meu sangue pingando na terra. Ela só não viu eu escondendo e já veio em minha direção levantando as mãos e cantando aqueles canto bonito de celebração do nosso povo.


É, meu fio ou minha fia que tá lendo essas palavras: eu não estava nada contente com o sangramento. Enquanto todas as muié da aldeia cantavam e me banhavam no rio, meu pai chegou na beira e falou:


- Já vamos preparar a aliança entre as tribos. Vou viajar para as terras distantes e trarei alguns guerreiros para disputar a vossa mão.


Meu pai viajou e a vida seguiu, mas eu estava com meu coração entristecido, pela idéia de casório que se aproximava; mas tudo seguia; falei com minha mãe que eu ia tomar banho nas águas do rio e fui. Enquanto me banhava e chorava, lamentando com a natureza aquela realidade, sinti meu corpo inteiro estremecer: era como se um barulho muito forte viesse da pedreira, ao lado da cachoeira, e quando eu olhei vi uma luz muito forte, esverdeada e vi o martelo de Xangô. Aquele martelo foi se aproximando de mim e meu corpo ali, todo estremecendo. Eu aceitei, pois nunca tinha sentido força tão grandiosa em meu corpo tão pequeno. E quando o martelo de Xangô chegou bem próximo à minha testa eu escutei:

- “A lapidação do espírito irá chegar através das terras distantes”.


Aquele martelo sumiu, meu corpo foi voltando à realidade da terra e eu fiquei pensando naquelas palavras e no que aquilo podia significar. Voltei para minha cabana e tava ali fazendo os colares junto com as outras irmãs de pele escura da nossa aldeia. Foi quando ouvi um alvoroço lá fora: era meu pai chegando com todo o povo da outra tribo e junto com eles, vejo 6 véios. Eu nem da cabana saí. Já aceitava meu destino, ainda mais, depois da mensagem de Xangô. Mas aí eu fiquei prestando atenção e vejo atrás daqueles 6 véio, um jovem com arco e flecha, uns colares no pescoço, mas não dava pra ver ele direito com aquele monte de véio na frente. Percebi que meu pai conversava com os homi da outra aldeia e com esse jovem também. Pelos trajes ele não fazia parte daquele povo. Quem gostava muito de conversar era a minha avó; aproveitei que ela estava entrando, toda contente com o casório, parecia até que ela que ia casar; perguntei a ela quem era aquele jovem. Ela disse que meu pai achou ele no meio do mato. Esse jovem contou que perdeu a família, mas era muito sábio, e meu pai resolveu convidar ele para o meu casamento.


E aí começou festa pra cá, comilança pra lá eu vendo tudo aquilo, resolvi tomar banho na cachoeira. Como meu casamento seria na próxima lua cheia, eu tinha que aproveitar, pois aquela poderia ser a última vez que eu poderia me banhar livremente nas águas claras. Chegando na cachoeira, enquanto me banhava, escuto um barulho no mato: Olho para trás e vejo aquele jovem que veio junto com os velhos. Ele estava em frente a uma frondosa árvore. Ele juntava as duas mãos pro céu e abria os abraços, e foi descendo o corpo dele e saudou aquela árvore. Eu saí da cachoeira bem devagar para não fazer barulho e fui até ele. Ele era filho de Ossain e estava reverenciando o poder das ervas. A Vó sentiu uma coisa muito diferente. Quando ele sentiu a minha presença, ele foi virando lentamente e quando meu olhar bateu no olhar dele, ele deu um sorriso, abaixou a cabeça lentamente e agradeceu. Eu perguntei:

- Por que ocê tá me agradecendo?


Ele disse:

- Porque eu nunca vi na minha vida, uma beleza tão grande!

Meu coração disparou, meus fios! Ele foi se aproximando e meu olhar mais uma vez entrou no olhar dele. Ele perguntou meu nome, me disse o dele e ele novamente repetiu:

- Eu nunca vi uma coisa tão bela nesse mundo!


Aí eu disse a ele que eu iria casar na próxima lua. Ele disse surpreso:

- Você é a noiva?

E ria, e agradecia a Ossain e pulava todo contente; se ajoelhou nos meus pé e disse assim:

- Eu sou um dos noivos.

Nos abraçamos e pulamos de alegria. Aí eu disse:

- Um dos noivos? Tem mais noivo?


Aí ele me explicou que ele precisava vencer alguns testes para ele conseguir minha mão; para isso ele tinha que pegar o Otá mais poderoso. Otá é uma pedra, meus fios, e quando coloca essa pedra no chão, se firma um Orixá. Então ele tinha que se embrenhar na floresta e pegar o Otá mais poderoso. Cada um dos noivos tinha que pegar um Otá.


Eu tinha que voltar, mas eu voltava com meu coração cheio de alegria! Ah meus fios, se eu conseguisse colocar em palavras o que a Vó sentiu naquele momento! Era o amor, meus fios! Eu tinha acabado de conhecer o homi da minha vida! Só que antes de entrar na cabana, meus fios, eu vi aquele amigo do meu pai se embrenhar pelo mato; sabe quando ocê sente um aperto no coração? “Tem coisa estranha aí”; mas eu tava tão feliz que deixei isso pra lá. Aí entrei na cabana toda contente; peguei as flores mais bonitas para fazer uma coroa bem bonita; peguei as sementes que minha mãe trouxe e fiz um lindo colar. Eu estava muito contente mesmo!

Bom, aí meu pai já tinha avisado todo o povo que os nego ia procurar os Otá, mas eu sentia que meu nego ia voltar com Otá mais poderoso para ancorar a força do Orixá que ele representava. Mas aí, meus fios, oceis sabe que nada é fácil nesse mundo, né ? Eu olhei o nego mais veio, que era um dos pretendente e vi que ele era muito forte: Tinha força de Xangô e percebi que ele seria um grande rival do meu nego; mas acabei confiando, né meus fios? Xangô já tinha me avisado na pedreira que vinha a lapidação do meu espírito. Eu vou lapidar meu espírito com a força do amor e assim se fez.

Os nego se embrenharam lá pro meio da mata pra procurar os Otá. Essa Vó rezou para o meu nego encontrar a força do Otá no poder de Ossain, que era o Orixá que ele carregava.


Aí a Vó já podia sair da cabana, para ajudar minha mãe com os preparativo para quando os nego voltasse dessa caça aos Otá, mas aí, a Vó ficou prestando atenção no nego que era amigo do meu pai: Ele ficava olhando pra cá, pra lá... parecia que tava olhando quantos nego tinha na aldeia. Ele olhava as criança, entrava nas cabana das flechas, conversava com o povo mais véio. Meu pai não percebia nada, mas tinha algo estranho com esse nego. Bom, mas se meu pai que era sábio não tava vendo nada, quem era eu pra ver alguma coisa, né? Continuei ajudando minha mãe.


E aí passou um, dois dias, entrava sol, entrava lua e o tempo foi passando. Meu coração apertado querendo saber o que estava acontecendo na mata.

Oceis já se apaixonaram assim, meus fios? É uma coisa boa, né? É uma energia diferente que corre no corpo! É tão diferente que até o coração bate em outro ritmo.

Bom, ai começou a chegar um a um. Veio um véio, outro, e nada do meu nego. Eu ficava espiando pela tapeira da cabana, porque eu não podia sair na hora que os pretendente estava lá fora. Os nego firmava os Otá.


Firmava, cantava, chamava e a força do otá interagia com eles. Eles balançava o corpo. De repente quem eu vejo? Era meu nego, com o peito levantado, cabeça erguida, meus fios, ele tinha 3 sacola e eu de longe senti que aqueles Otá era poderoso. Aí o meu nego chegou e ancorou o Otá dele. Ah meus fios! Quando ele começou a trazer o canto de Ossain, não teve um que ficou de pé. Todos os Orixá vieram saldá, todas as forças alí começaram a rodiar aquele Otá forte e poderoso que curou naquele momento tudo os que os nego tava sentindo! Meu pai levantou o braço direito, chamou a força do Orixá guerreiro e foi firmado Ogum. Olha meus fios, se oceis nunca viram uma festa de Orixá, oceis iam ficar com alma cheia de luz! Que coisa mais poderosa!


E o meu nego humilde, olhando a tudo e a todos, sem se engrandecer; a Vó ficou muito feliz porque teve a certeza que aquele era o nego do meu coração! Aí a festa terminou, aquele Otá ficou firmado no centro da aldeia, os homi firmando o acordo por quantos animar iam me trocar; mas eu não tava nem me importando com isso, podia ser uma manada de animar, o que já valia e que meu coração já pertencia ao meu nego: aquele que trouxe o Otá poderoso!


Os véios junto com meu nego, se despediram e vortaram para a aldeia deles, porque só quando tivesse o firmamento da lua cheia, eles iam vir pra fazer o casório. Quando tem um casório, meus fios, os homi que já não trabaiavam, era uma bebeção, e come daqui e comi dali e as muié trabaiando; e dança e reverencia Orixá, e as muié trabaiando!

Bom, teve um dia que já começou a transformar a lua. Eu olhei pro céu: Era lua cheia. É amanhã que vai ser meu casório. Os nego tudo em festa! Fizeram aquela fogueira alta; tudo festejando em volta da fogueira, comendo e bebendo. Quando eu olhei para aquele amigo de meu pai, ele não bebia, só comia. Eu achei estranho aquilo. Os negos da aldeia, um caindo pra lá, outro pra cá, todo mundo já cansado. Quando todo mundo dormia, eu vi aquele amigo do meu pai levantando; eu logo vi que tinha algo errado e decidi ir atrás dele. E aí ele foi se embrenhando pelo mato e eu fui atrás dele, bem devagar. Ele olhava pra trás e continuava andando. Quando ele chegou próximo a uma árvore bem grande, ele parou e fez um barulho. Meus fios, quando ele fez aquele barulho eu nunca vi nada igual! Surgiu um monte de homem branco cheio de coisas nas mãos. Aí ele chegou pro homi branco e apontou pra minha aldeia, meus fios, eu falei:

- É perigo! É perigo!


Meus fios: eu corri, corri e os homi branco correndo atrás. Cheguei na aldeia e tentei acordar meu pai, as crianças, todo mundo, pra todo mundo fugí, mas não teve jeito, meus fios, não teve jeito. Aqueles homi branco laçaram tudo nóis. Eu olhava pra um, olhava pra outro, as muié tudo gritando e eu não consegui ver mais nada; eu só olhava aquela lua cheia e pensava: Onde está meu nego? Onde esta meu pai, minha mãe... e as crianças? Nessa hora, só senti uma pancada bem forte na minha cabeça e quando essa Vó acordou, estava perto das águas salgadas e eu só escutei aquele nego traidor falando pra nóis:

- O passado vai se fechar. Agora oceis vão pra uma outra vida.


Nóis tava tudo amarrado como animar. Colocaram nóis tudo numa caixa grande de madeira. Muitos irmãos de pele escura morreram ali mesmo. Outros sobreviviam bebendo a própria urina. Cada xibata que vinha no lombo da Vó, eu me lembrava de uma lembrança boa: As águas que a Vovó se banhava; as brincadeiras de criança; da bola de barro; e a Vovó foi suportando tudo, porque foi trazendo as lembrança boa do passado. Cheguei na mãe escravidão e durante muito tempo, a Vó nunca mais amou um homem como amou aquele meu nego dos Otá poderosos. Nunca mais. A Vó percebeu que Xangô quando trouxe a mensagem da lapidação do espírito, não tava firmando um destino pra Vó, mas tava firmando uma nova forma de ver a vida. E aí meus fios, a Vó teve que usar a mente pra sobreviver.

Com o coração cheio de tristeza, por não ter meu pai, minha mãe, meu nego, a Vó teve que sobreviver. Na senzala, para não ser abusada bem novinha pelos homi branco, a Vó pegava as moscas que tinha nos resto de comida que davam pra gente e colocava no corpo. Aí os homi branco vinha e achava que a Vó tava doente e deixava a Vó em paz. Fui pro canavial, depois pra cozinha da casa grande, sempre guiada pela fé, pela minha força de agir e coragem de enfrentar o novo sem medo.


Perdi muitos fios. Vi muitos nego morrer no tronco. Passei por muita dor e tristeza, sem contar o que eu tinha que aguentar da sinhá mais véia, que de tão ruim, arrancava os próprio cabelo. Mas com fé, meus fios, eu venci tudo. Então acredite: Não importa o que ocê tá passando hoje. Vai passar. Acredite em ocê e nas forças espirituais. Acredite!



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